sexta-feira, 11 de outubro de 2013

CAPÍTULO 40 - O Trabalho do Papai

Meu pai anda meio triste... pelo que eu entendi é porque está sem trabalho. Parece que trabalho é algo muito importante na vida dos adultos, porque passam muito tempo falando disso.

Mamãe faz de tudo para eu não perceber quando eles estão tristes, mas isso é impossível. Eu percebo mesmo. E então faço de tudo para alegrá-los. Não sei se adianta, mas a verdade é que eles se distraem. Acho que aí está o segredo que os adultos se esquecem: que a alegria pode estar em coisas descomplicadas.

Voltando para o motivo da tristeza do meu pai, fico confusa.

Ouvi na televisão que em um lugar chamado Estados Unidos, 10% das pessoas que moram lá estão desempregadas. Não sei nada de Estados Unidos, mas já percebi que é um lugar importante, porque as pessoas sempre falam desse canto do mundo com muita atenção. Também não entendo o que é 10%, mas já percebi que é uma medida que significa muita coisa, porque a mamãe tem mania de falar que está 10% acima do peso - e diz isso com uma cara de que significa bastante!

Pois bem: se o  trabalho é tão fundamental assim, como pode não existir pra todo mundo? Nem mesmo no tal dos Estados Unidos!! Acho que vou ter que crescer pra matar essa xarada!

Nessas horas, eu queria muito já saber falar. Porque adoraria poder dizer pro meu pai que o trabalho que ele exerce lá em casa é o mais bem feito do mundo: ele pratica o cargo de pai com a mais profunda maestria!!! Se ele pudesse compreender isso  - nessa hora que parece ser tão difícil - talvez eu o ajudasse a compreender que a importância das pessoas nunca está em um único lugar...

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

CAPÍTULO 39 - A primeira febre

Esta noite, pela primeira vez, tive febre. Mamãe ficou logo apavorada. Mas papai não. Acho que ele percebeu que não era nada, quer dizer, era apenas alguma virose sem maior importância. E conseguiu convencê-la a não irmos para o hospital. 

Fiquei feliz por meu pai ter conseguido convencer minha mãe a me deixar em casa. Imagina você estar com 39,5 de febre, mole, com frio, se sentindo mal e, ao invés de ficar na cama dos pais, quentinha e protegida, ser levada para um hospital? Deve ser horrível...

Mas minha alegria não demorou muito. Sem perguntar para ninguém o que fazer quando o bebê de 09 meses está com 39,5 de febre, resolveram me molhar! Que desastre... eu chorei bem alto, mas não serviu para muita coisa: eles acharam que meu choro era de frio e acabaram me levando pra dentro da pia mesmo assim... eles definitivamente não me entendem!

Na manhã seguinte, fui salva pela pediatra! Ela foi logo dizendo: “Banho frio é o último recurso – nunca o primeiro!” Obrigada querida pediatra; outro banho frio e eu ficaria realmente acabada!

Com todo o ocorrido, ganhei o dia em casa. Foi a primeira vez que faltei na escola. Mas achei um exagero da mamãe, porque eu já estava bem, sem febre e pronta para brincar com os meus amigos. As mães são assim mesmo, muito preocupadas. 

Quando Papai chegou, logo perguntou: “Margarida não foi pra creche?” E mamãe, com aquela voz decidida, própria da maternidade quando confrontada com a paternidade, respondeu com certa arrogância: “Claro que não, teve 39,5 de manhã.” 

Eu troquei um olhar de cumplicidade com o papai, e ele entendeu que era melhor assim, deixar a mamãe tranquila, com sua certeza de que fez o que é bom pra mim. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

SEMANA 38 - A comida dos meus pais

Percebi que enquanto estou na minha cadeirinha comendo a comida colorida que eles chamam de papinha, no prato do meu pai e da minha mãe tem uma comida diferente! E parece ser muuuuuuito melhor!

Como eles não entendem o que eu falo, mergulhei direto em cima do prato do meu pai. 

E, então, surgiu uma grande dúvida: por que eles me dão essa comida sem graça e comem uma comida muito melhor?

Eu sei que ainda não tenho todos os dentes, mas também sei que a maioria das coisas que eles comem eu poderia comer sem dentes mesmo.

Será que existem outros empecilhos para comer comida de adulto além de não ter dentes?? 

Eles poderiam, ao menos, me explicar...

terça-feira, 10 de setembro de 2013

SEMANA 37 - O tempo da minha mãe

Eu não gosto de me separar da minha mãe. Não me importo de ir para a escola. Mas não gosto quando chego em casa e ela ainda não chegou. 

Ou, pior ainda, quando ela está em casa, mas não fica comigo!

Também não gosto de celular e nem de computador. Gosto quando ela fica COMIGO, e presta atenção em MIM. 

Por que será que ela não pode – quando eu estou em casa – prestar atenção SÓ em mim?
Será que estou esperando demais?

Será que todos os adultos são muito ocupados?
Será que os adultos são assim tão ocupados porque querem, ou já nem percebem que criam suas ocupações?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

SEMANA 36 - Minha primeira palavra!

Nesta semana, eu disse “PAPA” pela primeira vez. Meu pai não demonstra, mas eu sei que ele ficou muito emocionado!

MAMÃE” eu ainda não disse. Mas com ela é diferente,  não preciso falar “MAMÃE” para conseguir me comunicar. Por isso deixei essa palavra para depois. 

Com meu pai, por mais presente que ele seja, preciso ser bem clara para fazer ele me escutar. Então, achei mais sábio aprender “PAPA” antes de “MAMÃE”.

Estou muito feliz por ter falado a minha primeira palavra. Falar é mesmo impressionante. Você pensa e, através da fala, os outros te entendem. Até agora, eu ficava torcendo para eles me entenderem. Mas com a fala é outra história. Todo mundo entende rapidinho!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

SEMANA 35 - Quero falar!

Eu queria muito saber falar! Estou treinando. Estou realmente precisando aprender a falar porque os adultos não entendem a comunicação fora das palavras!

Agora eu entendo tudo muito mais, mas ainda não sei falar... 

Às vezes, quando está tudo em silêncio, eu faço barulhos. E quando alguém fala comigo eu respondo. Do meu jeito, porque ainda não sei usar as palavras. Mas gosto de responder para eles saberem que eu entendo o que eles dizem.

Sabe o que é engraçado? Os adultos acham que porque não sabemos falar nós não os entendemos. 

É justo o contrário: nós entendemos tudo. São eles que não nos entendem.  Aliás, é importante dizer: é mais difícil falar do que entender.  No meu caso, é mais complicado: meu pai fala em uma língua e minha mãe fala em outra.

Explico: os adultos dividiram a Terra em países, e cada país tem a sua língua. A língua (não a que fica na boca, e sim as palavras que saem dela) é algo próprio de cada país. Tem alguns países que usam línguas muito parecidas. E ainda tem países que usam várias línguas.

Complicado.... só sei que a Terra é muito dividida: em línguas, países, culturas e raças.

Língua é como as pessoas falam.
Países eu já falei antes: são divisões imaginárias que os adultos inventaram e desenharam no mapa, separando as pessoas em lugarzinhos diferentes.
Cultura, eu acho, é como as pessoas pensam e se comportam.

E raça, eu realmente não entendi o que é raça...

terça-feira, 13 de agosto de 2013

SEMANA 34 - A Vacina e os Adultos

Mais uma vacina.... É uma coisa horrível 

Eles me seguram e me picam com uma agulha. É o papai que me segura porque a mamãe tem pena e não consegue. 

A mamãe me explicou – desde a primeira vacina – que é para proteger contra doenças. E ela disse, assim como se fosse um detalhe, que a parte chata da vacina é que dói um pouquinho...

Por que os adultos não falam a verdade?
Um pouquinho????
Dói muito! Muuuuuito mesmo.

Nessa horas eu não entendo os adultos. Era melhor eles falarem a verdade. 

Eles contam da vida  - para nós bebês – como se não existisse dor, perda, separação. Mas nós sabemos de tudo isso. Sabemos melhor que eles porque sentimos tudo para além das palavras. 

Será que falar das partes difíceis da vida não seria uma estratégia melhor que fingir que tudo é perfeito?

Minha mãe e meu pai sempre me dizem que não estão tristes quando eu vejo que eles estão tristes. Sempre me dizem que não estão brigando quando eu vejo que eles estão brigando. Sempre me dizem que está tudo bem quando eu estou triste por alguma coisa. 

Por que será que eles falam o contrário?